Um dia frio com o céu nublado e o vento forte. Uma casa vazia, toda fechada e totalmente em silêncio. Um quarto escuro, com as janelas trancadas por dentro e a porta entre-aberta, deixando entrar uma pequena porçãozinha de luz. Duas taças de vinho (vazias) na mesinha de cabeceira e um abajur bem fraquinho ligado do lado. Uma cama muito gostosa e confortável. Um cobertor bem quentinho e macio. Você dentro dele. Nós dois de conchinha, inseparáveis. Carinhos nos cabelos, palavras de amor sussurradas nos ouvidos… E a carência lá do lado de fora, sentindo na pele o quanto é ruim ficar só. (Henrique Dias)
Ao chegar neste mundo, temos duas opções: podemos ser meros espectadores ou nos tornar grandes protagonistas desta história chamada Vida. E é isso o que define a diferença entre quem simplesmente existe e quem realmente vive a vida na maior intensidade possível.
Estava isolado, e principalmente desolado. Era um daqueles momentos em que o chão desaparece e passamos dias em queda livre rumo ao desconhecido. Pura incerteza.
- O que foi? - perguntou uma amiga.
Teve que pensar numa resposta.
- Não sei exatamente.
Ela esperou por uma resposta decente em silêncio. E permaneceu assim até que ele falasse.
- Eu só queria um pouco de felicidade.
Estava explicado.
- Eu tenho tudo aquilo que alguém precisa pra ser feliz. Uma casa, uma família que me ama, tenho meus amigos, mas mesmo assim parece não ser o bastante…
- Isso passa logo - respondeu a amiga, numa tentativa de consolá-lo.
- Acho que não. Eu passei a vida inteira assim. Só agora me dei conta.
- Não é pra tanto, poxa.
- É sim. Não quero viver a vida em piloto automático.
- Então por que simplesmente não tenta encontrar a felicidade?
- Eu nem sei onde procurar…
O silêncio reinou por alguns instantes, assim como uma busca incessante por uma resposta.
- Já procurou em si mesmo?
Ele fez cara de desdém.
- Como é?
- Se tem uma coisa que eu aprendi é que muitas vezes o que procuramos está mais perto do que imaginamos. Ser feliz não significa, necessariamente, encontrar a felicidade nas pessoas, mas encontrar um motivo em si mesmo para ser feliz.
- Como se matar de estudar por medo de repetir o ano?
- Algo muito mais grave que isso. Como o medo de chegar ao fim da vida e se dar conta de que ela não valeu a pena.
- É isso o que acontece comigo todas as noites. Ontem eu deitei a cabeça no travesseiro e não consegui enxergar motivo algum que tenha feito o meu dia valer a pena.
- Talvez ele não tenha valido mesmo.
- É claro que não.
- Então faça valer.
- Mas como?
- Se vira. Não é problema meu.
Ela se levantou.
- Você quer ser feliz? Ótimo. Corra atrás disso.
- Não é tão simples.
- E o que é simples? (Henrique Dias)
E depois de tanto sofrer me importando com pessoas que não davam a mínima pra mim eu finalmente aprendi uma lição: o mundo gira. Pode até demorar um pouco, mas pode apostar, ele gira.
Quer saber de uma coisa? Quero mais é que se foda. Quem gosta de verdade corre atrás, se importa, demonstra interesse. Ou se não faz isso, pelo menos valoriza quando você está por perto. Porque quando amamos uma pessoa, sentimos medo de perdê-la. Ficamos inseguros, apreensivos, paranóicos… Quando nos sentimos bem com a presença de uma pessoa fazemos de tudo para que essa presença seja sempre constante. Não adianta gostar e não demonstrar. Assim como não adianta demonstrar e não gostar. Então se decida, por favor.
Sou como um video-game. Alguém com o qual as pessoas erram e sempre conseguem uma segunda chance. Ou talvez pior que um video-game. Nos jogos as pessoas se esforçam para não decepcionar. Comigo elas nem se dão ao trabalho.
Se faltam homens de verdade nesse mundo, pode apostar que, em contrapartida, também faltam muitas mulheres de verdade. A diferença entre as pessoas já não é mais uma guerra dos sexos. É uma guerra de gente de verdade contra gente de mentira, independente daquilo que carregam entre as pernas.
Ela havia acabado de colocar a cabeça no travesseiro quando o celular tocou. Algumas dúzias de xingamentos passaram por sua cabeça e ela resolveu atender. Ao olhar o remetente, sua feição emburrada suavizou-se levemente.
- Oi, amor.
- Oi… – ele parecia não saber o que dizer.
- Já são uma da manhã!
Ela ouviu um pequeno suspiro do outro lado da linha e sentiu certa hesitação por parte do garoto.
- O que você quer? – finalmente indagou.
- Estou sozinho… – confessou o garoto.
- Querido…
- Por favor, não desliga! Eu estou sozinho em casa, você sabe que eu odeio isso.
A garota fez uma expressão de falta de paciência.
- E o que eu posso fazer por você?
- Vem passar a noite comigo.
- Você sabe que eu não posso sair de casa a essa hora!
- Não, isso não é verdade. Você está me dizendo que não vê um motivo pra sair de casa a essa hora, mas eu posso te dar um bom motivo.
Ela se levantou do travesseiro.
- Do que você está falando?
O garoto soltou uma leve risadinha do outro lado da linha.
- Eu peguei aquele seu filme preferido pra assistir. A intenção era ver sozinho, mas eu acabei fazendo muita pipoca, sabe…
- Aham, muita pipoca.
- E aí?
A menina pensou por alguns instantes, e finalmente respondeu:
- Deixa a porta destrancada.
A pipoca já havia esfriado e o garoto estava prestes a cochilar no sofá quando ela entrou pela porta da frente. Levantou-se num sobressalto e foi lhe dar um beijinho no rosto – sim, no rosto. Eram apenas amigos e logo não tinham intimidade para algo além disso.
- E então? - questionou ela.
- Senta aí, vou colocar.
Ela arrumou algumas almofadas, tirou o tênis e se acomodou no sofá enquanto ele arrumava a TV. Pegou o controle remoto, foi para o sofá e segurou o tacho de pipocas. Apertou play e o filme finalmente começou.
Duas coisas que você deveria saber:
Primeiro: ele odiava aquele filme.
Segundo: ela o havia assistido há três dias atrás.
Alguns longos minutos se passaram e o tédio reinou sobre aquela casa. Ela se ajeitou mais confortavelmente. Encostou a cabeça no sofá, entregando que estava prestes a cair de sono.
O garoto segurou a mão da menina e tudo parou. Os dois se entreolharam, e ele apenas disse em tom aconchegante:
- Vem.
E sem pensar duas vezes, a garota deitou a cabeça no colo dele. Mas, inexplicavelmente, o sono foi embora. Nem se quisesse conseguiria fechar os olhos. Havia uma energia tão boa e um clima tão intenso que isso seria impossível.
Mais alguns minutos se passaram, mas desta vez, passaram rapidamente. E voaram quando ele passou a acariciar os cabelos da menina.
- Por que você veio aqui? - perguntou o garoto.
- Porque você me chamou, oras.
- Não estou falando disso.
- Seja mais específico.
- Nós dois sabemos que você já viu esse filme milhões de vezes.
Ela virou o rosto para ele, ainda deitada.
- Você estava sozinho.
- E desde quando você se importa com isso?
Visivelmente constrangida, ela se levantou do colo do garoto.
- Melhor eu ir embora.
- Não! - disse ele, quando segurou o braço dela.
Entreolharam-se por alguns instantes. Por alguns longos instantes.
- O que você quer? - perguntou a menina.
E ele a beijou. Um beijo rápido, inocente… mas que durou tempo o bastante para se tornar o melhor da vida de ambos. E tão intenso a ponto de motivar o garoto a fazer algo que queria há muito tempo.
- Quer namorar comigo? - indagou, ainda com os lábios próximos aos dela.
Ela sorriu:
- Até que enfim. (Henrique Dias)
Caminharam pela areia da praia durante a madrugada de verão com uma garrafa de vinho e duas taças nas mãos. Foram até o ponto mais distante e mais deserto que encontraram, e ao chegar lá, sentaram-se na areia de frente pro mar.
As vezes as pessoas precisam se afastar do mundo para colocarem a cabeça no lugar e dizer um “eu te amo”, mesmo sem proferir palavra alguma.
Passaram alguns longos segundos olhando um pro outro, até que ele não resistiu e lhe roubou um beijo delicado, desses que nos fazem suspirar ao ver um. A garrafa rolou para a areia e as taças foram junto no momento em que ele as soltou e subiu em cima dela. Não estava preocupado com aquilo. Só queria estar junto dela.
E sua boca não desgrudou a dela por um segundo sequer. Ele queria tanto aquilo que não podia soltá-la. Não queria.
Quando perdeu totalmente o fôlego, caiu ao seu lado e olhou pra Lua. Suas mãos procuraram a dela em meio a areia e ele virou o rosto para olhá-la novamente nos olhos. Dizer qualquer palavra estragaria aquele momento. Afinal, olhares e sorrisos são capazes de transmitir mensagens que palavras são incapazes de traduzir.
Ela se arrastou até o peito dele, e deitou a cabeça ali mesmo. Ele a abraçou e passou a fazer carinho em seus cabelos. Ela deu um suspiro e o apertou mais forte ainda.
E ali adormeceram.
Felizes. (Henrique Dias)
Estou vivendo a vida em piloto automático, esta é a verdade. Sem expectativa alguma, sem alegria alguma. Fazendo tudo sem esperar nada em troca. Me levantando da cama apenas por obrigação, e não por motivação. Dormindo mais do que devia, já que ficar acordado não é lá a melhor opção. Já pensei em desistir, mas nem forças pra isso eu tenho mais. E quem dirá para seguir em frente. Só permaneço estagnado, esperando que um milagre aconteça. Ou que alguém pelo menos me estenda a mão para me ajudar. Isso faria uma diferença enorme.
Passamos a vida tentando provar pra nós mesmos que somos capazes de controlar o nosso próprio destino, e quando menos esperamos, percebemos que toda a nossa existência depende incondicionalmente de uma única pessoa para continuar seguindo em frente.
O mundo se divide entre dois tipos de pessoas: aquelas que enfrentam os problemas de frente com motivação e força de vontade e aquelas que passam a vida reclamando dos problemas sem sequer levantar-se do sofá para resolvê-los. Em resumo, o mundo se divide entre pessoas felizes e pessoas fracassadas em todos os sentidos.
Eu sempre fui do tipo que acreditou que não existem variações para o amor, não importando se você o sente pela sua mãe, pela sua namorada ou pelo seu melhor amigo. Pra mim sempre foi simples: ou você ama ou você não ama. Talvez por isso eu nunca tenha sido capaz de enxergar os limites das pessoas e a linha tênue que separa uma simples amizade de algo mais sério e duradouro. Está explicado o motivo pelo qual minhas relações são sempre um desastre.
O que está faltando nesse mundo é aquele senso de prioridade. Saber criar uma listinha mental de pessoas que realmente são importantes e descartar todo o resto. Jogar no lixo quem não vale a pena e pisotear até que estejam lá no fundo, pra ficarem bem amassados ao ponto de não ocuparem espaço nenhum neste mundo. Pra não ocuparem espaço nenhum no seu mundo.
Eu passo o dia pensando em coisas bobas, como na cor do edredom em que iremos dormir agarradinhos, ou se iremos assistir um filme de terror ou uma comédia romântica quando formos estreá-lo em nosso quarto num dia bem frio. Aliás, nossa cama será grande e espaçosa ou pequena para que possamos dormir bem pertinho um do outro? Ah, e temos que pensar também nas cores das paredes, nas posições das janelas, precisamos escolher a cor das luzes e dois travesseiros bem fofinhos. Se bem que… (risos) esqueça tudo isso. Dane-se a cor do edredom, o importante é você estar debaixo dele comigo. (Henrique Dias)














